
Pela primeira vez desde Guardiões da Galáxia Vol. 3, a Marvel volta a exibir duas cenas pós-créditos que realmente mexem no tabuleiro. Em Thunderbolts*, os teasers não são apenas piscadinhas para o fã: eles reconfiguram alianças, abrem portas para o Quarteto Fantástico e cravam um sinal direto rumo a Vingadores: Doomsday.
O próprio final do filme já prepara o terreno. Depois de a equipe ajudar Bob (Lewis Pullman) a recuperar o controle sobre a entidade Void, Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus) dá um passo político calculado: leva o grupo à imprensa e anuncia o rebranding — nascem ali os “Novos Vingadores”. O movimento tenta empacotar antigos párias como heróis oficiais. Só que Yelena Belova (Florence Pugh) sussurra no ouvido de Valentina um recado curto e afiado — “agora a gente manda em você” —, que parece virar a peça central desse jogo de poder.
As cenas pós-créditos, explicadas
A primeira cena aparece no meio dos créditos e vem com um tom mais leve. O foco recai sobre um dos membros mais engraçados da equipe, em um momento que começa como piada interna e vira ponte narrativa. O trecho costura três frentes que, até aqui, corriam paralelas: os “Novos Vingadores” (antigos Thunderbolts), o time de Vingadores liderado por Sam Wilson e a presença — ainda distante, mas já palpável — do Quarteto Fantástico.
Esse mid-credits não é só um alívio cômico. Ele deixa aquele detalhe que faz o fã dar um passo para trás e pensar: tem gente trocando informações entre as equipes, alguém mapeando ameaças em comum e um aceno claro ao projeto do Quarteto. É uma piscadela com função, daquelas que mais tarde o espectador lembra e diz: estava tudo ali.
Depois, quando os créditos terminam, vem a cena que altera a geografia do Universo Cinematográfico Marvel. É uma sequência dirigida pelos irmãos Russo — os mesmos de Guerra Infinita e Ultimato —, hoje envolvidos com Vingadores: Doomsday. A assinatura visual não está ali por acaso. O que vemos: a chegada do Quarteto Fantástico, marcada pelo seu foguete icônico, o mesmo visto nos trailers de The Fantastic Four: First Steps. Não é cameo gratuito, nem vinheta para colecionador. É a engrenagem girando em direção ao próximo grande crossover.
O pouso do foguete, tenso e intempestivo, sugere que os heróis já entram no MCU em clima de emergência, e não como apresentação tranquila. A cena conecta diretamente a Doomsday, praticamente servindo como “cena zero” do que deve vir pela frente. A aposta é clara: a Marvel usa os Thunderbolts para preparar o palco e traz o Quarteto como peça que faltava para lidar com ameaças de escala cósmica e multiversal.

O que isso muda no MCU
A jogada de Valentina — renomear a equipe como “Novos Vingadores” em rede nacional — é mais do que marketing. Ela busca legitimar um grupo que nasceu no cinza, dando selo oficial e narrativa de “redenção”. Na prática, isso pressiona o time de Sam Wilson, que já carregava o manto dos Vingadores clássico. Quem fala em nome dos Vingadores? Quem enfrenta que ameaça? Quem assina os acordos e responde a possíveis erros? Esse conflito não é de uniforme; é de legitimidade.
Yelena, por sua vez, deixa claro que não pretende ser peça de xadrez de Valentina. O sussurro — “a gente manda em você” — indica que a relação virou. Com o carimbo de “heróis” agora no peito, os antigos Thunderbolts ganham capital político e moral para negociar à sua maneira. E isso muda tudo. Um time que se via como missão por conveniência passa a ter pauta própria.
O detalhe mais sensível desse novo equilíbrio é Bob e o Void. Nos quadrinhos, o Void é a sombra destrutiva de uma das figuras mais poderosas do universo Marvel. O filme cria a sensação de que o grupo aprendeu a “baixar o volume” desse monstro — não a eliminá-lo. Isso é força e fraqueza ao mesmo tempo. Força, porque ter um trunfo de nível cósmico pode decidir batalhas. Fraqueza, porque qualquer escorregão vira risco existencial. A cena final, ao mostrar Bob recuperando o controle, prepara a pergunta para os próximos capítulos: quem garante que esse controle é sustentável?
Do outro lado, a chegada do Quarteto Fantástico não joga apenas charme de nostalgia. É um aviso de escala. Reed Richards e companhia costumam entrar em campo quando o assunto passa do nível “grandes vilões na Terra” para “ameaças que dobram a física, o tempo e a realidade”. Se o foguete deles atravessa a tela logo depois de Thunderbolts*, a mensagem é direta: vem coisa grande — e logo.
A ligação com Vingadores: Doomsday coloca um holofote extra nessa costura. Ter os irmãos Russo assinando essa cena é um recado para o público: há um cérebro único organizando a convergência. Eles já fizeram isso antes, ao amarrar linhas narrativas espalhadas em Guerra Infinita e Ultimato, e sabem como transformar pontas soltas em evento. Aqui, usam o pós-créditos para fixar uma âncora visual (o foguete do Quarteto) e uma direção clara (Doomsday no horizonte).
Também chama atenção a volta do “modelo fase 2/3” de pós-créditos: um momento mais leve, que brinca com personagens e planta semente, seguido de uma cena maior, que aponta para o próximo filme-evento. Nos últimos anos, a Marvel alternou entre teases tímidos e mensagens mais desconectadas. Thunderbolts* sinaliza ajuste de rota: menos piscadas soltas, mais continuidade. É o estúdio dizendo “tem plano” — e mostrando onde ele começa.
Essa engrenagem impacta a dinâmica interna dos Vingadores. O time de Sam Wilson ganha um rival direto não só no front de combate, mas na opinião pública. Valentina entendeu o valor da marca “Vingadores” e carimbou seus soldados com ela. Sam, por sua vez, não vai ceder terreno com facilidade. A tendência é de encontros tensos no curto prazo — e colisões inevitáveis quando as agendas baterem. Quem atende primeiro a próxima grande crise? Quem fala pelo planeta quando o perigo é multiversal?
Para os Thunderbolts, o novo título muda o tipo de missão, a percepção de risco e o escrutínio. Errar como “covert ops” é uma coisa; errar como “Vingadores” é manchete global. E Valentina sabe operar mídia, Congresso e orçamento. Yelena e seus parceiros vão ter que equilibrar autonomia com responsabilidade pública — e é aí que a frase “agora a gente manda em você” pode voltar como bumerangue. Quem manda em quem quando a conta chega?
O Quarteto Fantástico entra nessa história como “engenheiros de crises”. O foguete que vimos nos trailers de The Fantastic Four: First Steps já funcionava como cartão de visita tecnológico. No pós-créditos, ele vira o chamado à ação. Com Reed Richards, Sue, Johnny e Ben prontos para o jogo, abre-se espaço para temas que a Marvel vinha apenas roçando: incursões, realidade instável, experiências que saem do laboratório para o campo de batalha. É a peça científica chegando ao tabuleiro super-heroico.
Vale notar como o filme costura a recuperação de Bob/Void com a chegada do Quarteto. De um lado, um poder bruto e instável; do outro, uma mente que costuma atacar o problema pelo método. Em Doomsday, essa combinação pode ser vital: conter, calcular, reagir e, se preciso, reiniciar o tabuleiro. A cena dos Russos parece montada para sugerir essa soma: músculo e cabeça.
Se você gosta de rastrear pistas, Thunderbolts* deixa um mapa de perguntas que o MCU vai precisar responder rápido:
- Como Sam Wilson e seu time reagem à apropriação do nome “Vingadores” por Valentina?
- Qual é o limite do controle de Bob sobre o Void — e quem tem a “chave de segurança” se algo sair do eixo?
- O Quarteto chega para liderar a ciência do grupo ou para resolver uma crise específica que já está batendo à porta de Doomsday?
- Yelena assume de vez a liderança política e tática dos Novos Vingadores, ou essa provocação a Valentina acende uma guerra interna?
- Quem costura as pontas entre equipes para evitar dois Vingadores concorrentes no mesmo mapa de ameaças?
No meio disso tudo, a Marvel recupera um hábito que o público adora: pós-créditos que valem o tempo na poltrona. O mid-credits dá risada e deixa pista. O final crava o rumo e mostra a próxima peça entrando em cena. Thunderbolts* não só fecha sua história com um novo rótulo para a equipe. Ele abre a temporada de respostas que só um encontro de Vingadores — com o Quarteto Fantástico no radar — pode entregar.
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